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Um artigo muito interessante sobre Comunicação Não Violenta

 

Você certamente já ouviu um não na vida, mesmo para algo que você queria muito, muito mesmo, ouvir um sim. A probabilidade disso acontecer aumenta drasticamente conforme convivemos com mais seres humanos por uma razão muito simples: cada pessoa quer uma coisa diferente.

Porém, aprendi em um curso de Comunicação Não-Violenta (CNV) uma ideia que complementa esse problema e oferece um caminho: a hipótese de que tudo o que as pessoas fazem é para sanar uma necessidade. Isso oferece um caminho porque a CNV propõe que os seres humanos compartilham as mesmas necessidades. Como escrevi no texto 17 coisas que aprendi com a Comunicação Não-Violenta no curso do Dominic Barter:

Para compreender essa ideia, precisamos lembrar que necessidade é aquilo que não cessa. São nossos valores e princípios que informam aquilo que entendemos que não pode nos faltar na vida. Necessidade não é, por exemplo, querer comprar um carro. Isso é, no máximo, a forma como decidimos atender a alguma necessidade.

Algumas de nossas necessidades são: autonomia, sentido, conexão, reconhecimento (do que somos e fazemos, não fama), criatividade, confiança, diversão, harmonia, além dos mais autoevidentes, como ar, comida, movimento, descanso, toque, água.

Sempre que fazemos alguma coisa, estamos a cuidar de uma necessidade nossa — mesmo que não tenhamos clareza disso. Mesmo quando a gente faz com raiva? Mesmo quando a gente fica triste? Sim.

Ainda do meu texto revisando o que aprendi no curso da CNV:

Uma proposta, corroborada pela neurociência, é a de que os sentimentos são um sistema de alerta muito fino para reconhecermos quando algo está fora de sintonia.

Se nossas necessidades estão sendo atendidas, sentimos alegria. Se nossas necessidades não estão sendo bem cuidadas, aí abrimos espaço para a tristeza, a raiva etc. Sentimentos são a fumaça do fogo das necessidades. Eles aparecem e nos alertam que há algo queimando, para o bem ou para o mal.

Quando concordamos que tudo o que fazemos é para cuidar de uma necessidade, fica mais fácil entender um conceito central para a CNV:

Todo não é um sim para outra coisa.

Acredito que a construção de um mundo melhor passa por mais conexão e verdade. Quando peço algo e em resposta recebo um não, uma possibilidade é ficar emputecido e inconformado; o que tenho buscado é entender qual é o sim por trás desse não?

Essa pergunta afasta a noção de que alguém disse não para mim. O não é sempre para a ação e por causa das necessidades.

Observe que isso não quer dizer que as pessoas jamais se equivocam sobre as formas de sanar suas necessidades. Esse é, aliás, um dos maiores problemas do mundo. Dependendo do que acreditamos, optamos por estratégias de autocuidado que produzem resultados indesejados para o mundo, para as pessoas com as quais nos relacionamos e até para nós mesmos.

(Exemplo. Aquela voz interna que critica meus textos enquanto estou produzindo-os, que diz que não está bom, que ninguém vai gostar, que é melhor eu voltar a dormir em vez de criar; ela é uma tentativa muito torta de cuidar de mim e de me proteger da frustração e tristeza de não ser aprovado e apreciado pelo coletivo. Essa forma de autopreservação que aprendi, porém, frustra outras necessidades minhas, como a de criatividade. Ou seja: mesmo as minhas ações para atender a algumas necessidades podem falhar em atender outras.)

Porém, uma vez que entendemos que as pessoas estão tentando cuidar daquilo que não cessa em suas vidas, podemos começar a buscar estratégias que contemplem as necessidades de todos e nãos só de alguns. A pergunta deixa de ser como eu resolvo o meu problema? e passa a ser como podemos resolver juntos os nossos problemas?

O não da outra pessoa não é sobre você, mas sobre algo que ela está buscando atender de outra forma.

Se houver espaço para o diálogo, exercitar a empatia e tentar descobrir o que está por trás do não que recebemos é um ótimo jeito de começar. Isso é difícil porque exige maturidade e inteligência emocional para lidar com nossa frustração/tristeza/raiva e ainda assim trabalhar (às vezes sozinho, pelo menos no início) em busca de uma relação mais conectada e que atenda às necessidades de mais gente. O lado bom é que nossa inteligência emocional se desenvolve conforme praticamos.

Ouvir um não para algo que me importa é sempre doloroso. Tem vezes que a única coisa que consigo fazer é sentir raiva. A maioria das vezes, na verdade. Entretanto, a prática tem me ensinado a parar, olhar de novo e procurar para o que a pessoa está dizendo sim. Às vezes consigo sentar e conversar. Às vezes preciso escrever um texto.

O que quer que seja, se for orientado para produzir mais conexão entre as pessoas, estará a serviço de um mundo melhor de se viver.

O não jamais vai desaparecer

Enquanto escrevo, estou pensando nos nãos que podem surgir em resposta ao texto. Tem um ponto que quero destacar: um mundo melhor não é um mundo sem nãos. Isso não existe e acredito que jamais existirá.

Dizer não é uma forma poderosa de cuidar das minhas necessidades. Se estou consciente e interessado em mais conexão, posso revelar o meu sim junto ao não. Essa é uma boa prática, inclusive, porque informa a outra pessoa sobre o que está se passando dentro de mim — um baita presente, pois o universo interior de outro ser humano é sempre um mistério infindável. Mas nada muda o fato de que o não existe para me cuidar.

Às vezes, as pessoas querem coisas diferentes. Às vezes, as pessoas tentarão atender a necessidades distintas, que não dialogam entre si naquele momento. Se eu quero atender minha necessidade de paz (por meio do silêncio e isolamento) e você quer atender sua necessidade de atenção e conexão, é improvável que eu possa te oferecer isso agora. Talvez mais tarde.

Entender que existe um sim por trás de todo não é bem diferente de sugerir que acabou a frustração, tristeza e raiva no mundo. Porém, quando entendo o que as pessoas estão cuidando com as suas ações, a minha frustração, tristeza ou raiva diminui — e esse me parece um caminho mais que justo para continuar fomentando vidas mais conectadas.

Tales Gubes
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